sábado, 8 de julho de 2017

Lambruscos que vale a pena experimentar

Diante da expressão ruidosa da beleza do Lambrusco, você pode ouvir algo assim:

“Ah, aquele vinho tinto doce e baratinho que parece refrigerante?”

Bem, não é bem assim, mas... vá lá, é, é esse mesmo. Aparentemente, o Lambrusco ainda tem muito que remar para se recuperar do estrago causado à sua reputação quase 40 anos atrás (por culpa do boom do vinho da década de 1970). Felizmente, isso quer dizer que o amável leitor encontrará vinhos ótimos a preços ridiculamente bons. O Lambrusco é bom de verdade, e sua história é mais fascinante do que se possa imaginar.


Na verdade, Lambrusco é uma família de variedades de uva muito antigas, autóctones da Itália. A maior parte dos vinhos combina algumas variedades distintas, cada uma com um perfil gustativo diferente. Não se sabe ao certo quando essas variedades se manifestaram, mas Catão, o Velho, pode tê-las mencionado na obra De Agri Cultura em 160 a.C (o tratado de agricultura mais antigo da Humanidade). Então, quando você bebe um Lambrusco, está bebendo um vinho muito antigo (alguns mais velho do que o Cabernet).

Hoje em dia, os melhores Lambruscos são secos (secco) e semi-secos (semisecco), e quase sempre são produzidos no estilo frisante (frizzante). Existem cerca de 10 variedades diferentes (para ser exato, 8 variedades estreitamente correlatas). Isto posto, o amável leitor precisa conhecer as quatro variedades de alta qualidade:

  • Lambrusco di Sorbara;
  • Lambrusco Maestri;
  • Lambrusco Grasparossa; e
  • Lambrusco Salamino.

Essas quatro variedades apresentam a gama completa de estilos, e se harmonizam com um espectro incrível de pratos, desde o apimentadíssimo churrasco coreano até empanadas argentinas.


Lambrusco di Sorbara
Esta uva produz o mais leve, delicado e floral dos Lambruscos, e costuma ostentar uma tonalidade rosada clara. As melhores versões têm um estilo seco e refrescante, com aromas deliciosamente doces de flor de laranjeira, mexerica (ou bergamota, para o amável leitor gaúcho), cereja, violeta e melancia. Esses vinhos são encontrados no mercado principalmente com a indicação Lambrusco di Sorbara no rótulo, e se harmonizam muito bem com pratos condimentados (culinárias tailandesa, indiana, baiana, mexicana e coreana).

Lambrusco Grasparossa
Esta uva dá origem aos Lambruscos mais "ousados", com aromas de cassis e mirtilo, apoiados sobre taninos moderadamente fortes, que secam a boca, equilibrados pela cremosidade aportada pela efervescência do processo Charmat. Este vinho é encontrado no mercado com a denominação Lambrusco Grasparossa di Castelvetro no rótulo (que inclui 85% desta uva), e se harmoniza perfeitamente com embutidos temperados com erva-doce, lasanha, ou até mesmo aquela costelinha ao molho barbecue do Outback (jabá, please...).

Lambrusco Maestri
Os vinhos de Lambrusco Maestri apresentam mais aroma de uva, apresentam bolhas "cremosas" e notas sutis de chocolate ao leite. A uva L. Maestri é, na verdade, a mais "viajada" de todas as variedades da Lambrusco, e há excelentes exemplares australianos (Adelaide Hills) e argentinos (Mendoza) - recomendo por experiência própria o da Bodega Don Bosco. É um pouco difícil encontrar um Lambrusco Maestri monovarietal na Itália, mas, se o amável leitor viajar à botta, recomendo que procure o Nero di Lambrusco Otello, produzido pela Cantine Ceci (pronuncia-se tché-chi, nada a ver com a amada de Peri, viu?). Eu garanto que, após provar um Maestri, se o amável leitor for daqueles que esculhambam o Lambrusco por causa dos Cavicchioli da vida e dos supermercados, ocorrerá uma conversão imediata.

Lambrusco Salamino
Os cachos desta variedade de Lambrusco têm uma forma cilíndrica, semelhante à de um salame (daí o nome). Estes vinhos têm as deliciosas qualidades aromáticas do Lambrusco di Sorbara (imagine cerejas e violetas) com a estrutura (ou seja, os taninos), a cremosidade e a profundidade de cor do Lambrusco Grasparossa. É mais comum que o Lambrusco Salamino seja produzido nos estilos mais doces (semisecco e dolce) para contrabalançar seu tanino (curiosamente, a doçura faz com que ele se harmonize muito bem com hambúrgueres). Esta variedade pode ser encontrada no mercado com as indicações Reggiano Lambrusco Salamino e Lambrusco Salamino di Santa Croce.









Existem, também (mas não no mercado brasileiro, s.m.j.), um Lambrusco orgânico produzido como um corte de L. Salamino, L. Maestri, L. Montericco e L. Marani.

A maior parte da produção do Lambrusco se dá na Emilia-Romagna, uma região da Itália que dá origem a muitas iguarias famosas: o vinagre balsâmico de Modena, o Prosciutto e o queijo Parmigiano-Reggiano são especialidades da Emilia-Romagna. Assim, um Lambrusco seco ou semi-seco com acidez pronunciada se harmoniza perfeitamente com esse tesouros gastronômicos da região. Se quiser harmonizar come un vero emiliano-romagnolo, sirva um desses Lambruscos com embutidos e queijo cremoso (daqueles de passar no pão). Se quiser ser ainda mais autêntico, acrescente um bom Prosciutto di Parma e um Parmigiano-Reggiano para animar a festa!

E... tenham uma boa vida!

2 comentários:

  1. Excelente artigo. Recentemente participei de uma degustação na Enoteca Decanter com o produtor Alberto Medice Ermete, mas infelizmente me atrasei e perdi metade da exposição....mas gostei muito dos lambruscos provados.Ele recomendou a harmonização com embutidos...

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    1. Jeriel, obrigado pelo feedback. Uma hora dessas vamos juntar a confraria para fazer algumas experiências de harmonização que indiquei no texto. Só não indiquei no post os Lambruscos bons que existem no mercado nacional porque o foco do blog é outro. Mas fica a dica: https://www.wine.com.br/vinhos/porta-soprana-lambrusco-grasparossa-di-castelvetro-doc-amabile/prod6952.html?utm_source=admotion&utm_medium=facebook

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